1 de nov de 2011

Medianeras e a interferência da arquitetura de "caixas de sapato" na vida urbana

"Buenos Aires cresce descontrolada e imperfeita. É uma cidade superpovoada num país deserto. Uma cidade onde se erguem milhares e milhares de prédios...sem nenhum critério. Ao lado de um muito alto, tem um muito baixo. Ai lado de um racionalista, tem um irracional. Ao lado de um em estilo francês, tem um sem estilo. Provavelmente essas irregularidades nos refletem perfeitamente."
Essa reflexão de Martin (Javier Drolas) dá início ao filme Medianeras - Buenos Aires na Era do Amor Virtual, primeiro longa-metragem de Gustavo Taretto - publicitário, que dá um toque diferente ao filme - que faz uma sutil, porém profunda, reflexão sobre como a arquitetura dos apartamentos minúsculos "caixas de sapato", como o próprio personagem associa, refletem diretamente nas separações, nos divórcios, na violência familiar, no excesso de canais a cabo, na falta de comunicação, falta de desejo, a apatia, a depressão, os suicídios, as neuroses, os ataques de pânico, a obesidade, a tensão muscular, a insegurança, a hipocondria, o estresse e o sedentarismo, sintomas descritos por Martin, decorrentes de uma modernidade conectada e "preocupada" com a comodidade do indivíduo, que acaba os acomodando demais a ponto de viverem em caixas de sapato, e não precisarem sair nem para comprar sua própria comida.
Esse cenário é comum em grandes cidades, não só em Buenos Aires, mas acontece também no Brasil. O paralelo foi traçado pelo jornal O Globo em parceria com o programa Morar Bem que propôs a alguns especialistas uma reflexão sobre a vida dos cariocas em seu espaço urbano.

Gustavo Taretto em entrevista para O Globo declarou: "O Rio me fascina, porque convive harmoniosamente com a natureza, e isso dá um ar mais tranquilo às pessoas. Quem tem uma só janela está condenado a um único ponto de vista, ao passo que quem abre uma janela amplia sua visão."
O estudo feito no entanto, comprova que de fato os imóveis estão cada vez menores. O tamanho dos apartamentos no estado do Rio de Janeiro, por exemplo, diminuiu na última década em média 13% e que o improviso de abrir janelas nas empenas cegas de edifícios é, naturalmente, proibido por leis municipal e federal, mas acaba sendo adotado pelos moradores que necessitam de mais luz e ar dentro de seus minúsculos apartamentos. 
"Irregularidades estéticas e éticas. Esses prédios, que se sucedem sem lógica demonstram total falta de planejamento. Exatamente assim é a nossa vida, que construímos sem saber como queremos que fique."
A inabilidade das relações humanas, e a superficialidade destas, assim como todos os sintomas descritos por Martin, são características de cidades que, já tão aglomeradas, crescem para cima em apartamentos minúsculos e cada vez mais compactos, onde temos espaço apenas para exercer nossas mais básicas funções: Nos alimentar, dormir e entrar na internet. Portanto, cabe a nós abrirmos a medianera necessária e expandir nosso olhar - e vida - para que possamos, mesmo em nossas caixas de sapato, viver harmoniosamente com nossas grandes cidades caóticas. 

Não perca Medianeras - Buenos Aires na Era do Amor Virtual em cartaz nos cinemas.

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