24 de ago de 2011

“Esses Amores”: Tributo ao cinema de Claude Lelouch, em entrevista exclusiva

Claude Lelouch reproduz em seus filmes seu olhar oblíquo do mundo na esfera do amor e dos sentimentos intensos desde o começo da sua carreira.
Em entrevista exclusiva para o site do Rendez-Vous with French Cinema, Lelouch fala sobre “Esses Amores” e o que o filme que sintetiza sua carreira significa para ele. Assim como o diretor, é uma entrevista não convencional feita por tópicos em que ele discorre e encaminha a “conversa” da maneira que prefere, o que torna o texto bastante interessante e capta bastante o ponto de vista do diretor. Confira abaixo:

“Esses Amores”: Ponto culminante de 50 anos de cinema

Durante minha carreira de diretor de cinema eu sempre pensei que um dia eu faria um filme que resumisse, que contivesse todas as paixões que sempre me moveram. Eu tenho procurado por sentido em meu jeito de fazer cinema do mesmo jeito que as pessoas procuram pelo sentido da vida. O mais velho consegue, as demais coisas estáticas se tornam essenciais. É como um corredor se aproximando da linha de chegada: a 50 metros dela ele se esquece de todas as estratégias. Eu também estou na ultima “volta” da minha vida, na reta de chegada na minha carreira de realizador de filmes. Se eu tivesse feito “Esses Amores” há 30 anos, provavelmente teria 5 horas de duração.
Para esse filme, usei todas as coisas que já anotei e rabisquei no percurso de minha carreira, todas as pequenas histórias que me fascinaram e eu pude relacionar, e me perguntando como poderia amarrá-las todas juntas.

Eu coloquei todas as minhas obsessões e tudo que já amei nesse filme. Representa a soma de todas as emoções que experimentei em minha vida. De certa forma é uma culminação de 50 anos de sonhos e emoções. Afinal, um artista tente a sempre pairar pelo mesmo assunto; vindo de mim não é pejorativo, porque nós todos temos nossas obsessões recorrentes. Guerra, por exemplo, tem um papel importante na minha vida. Eu era uma criança durante a guerra. Você não pode evitar carregar isso para o resto da sua vida, isso te marca para sempre. Quando você vivencia a guerra, você entende do que o ser humano é capaz, no melhor e no pior. Você nunca se sente completamente seguro. Você sabe que existem todos os tipo de “Judas” lá fora. Eu estava fazendo um filme reflexivo sobre todas as minhas obsessões, eu não tive escolha a não ser falar sobre guerras. E nesse filme você também vê ou ouve os filmes e as músicas com os quais eu cresci.

Ilva ou o nascimento da mulher moderna

Eu sei que a heroína de “Esses Amores” é uma mulher, e a espinha dorsal do filme é sua imagem. Todas as guerras ajudaram a mulher moderna chegar aonde chegou, mas foi durante a segunda guerra que ela realmente emergiu.
Quem foram os vencedores dessa guerra? As mulheres. O mundo que estamos vivendo hoje é resultado da vitória das mulheres. Elas sabem como conciliar seus sonhos e dificuldades da vida real. Elas podem levar um golpe e levantar, podem perdoar. O amor pode mata-las, mas também pode curá-las. Eu entendi muito cedo que as mulheres estavam prontas para se sacrificarem por amor, que elas eram o centro, o coração pulsante de todas as coisas.

Amor no Plural

Nesse filme eu retratei mais a fundo um relacionamento amoroso. Ilva diz “obrigada” com seu corpo, e ela se apaixona verdadeiramente por dois homens ao mesmo tempo. Se ela era incapaz de escolher entre um dos dois e deixa isso para que o acaso decida, era porque ela realmente amava os dois.

Eu deixei uma moeda decidir alguns rumos da minha vida, e eu queria que Ilva fizesse o mesmo. Ela é honesta com os dois, as coisas são perfeitamente claras. E eu também queria mostrar o homem ajudando minha heroína crescer como pessoa. Essa mulher é resultante de cinco homens que foram importantes em sua vida. Os primeiros quatro a preparam para estar amando o ultimo. Cada historia de amor é contada como se fosse a final, considerando que pode ser apenas a rodada de eliminação.

Amor e o presente

Eu já fui questionado por que conto apenas historias de amor. A razão é simples: É que eu só me interesso pelo que é essencial. E eu acredito que quando estão filmando uma história de amor. Eu agrego todos os outros aspectos da vida ao mesmo tempo: os sociais, políticos e também metafísicos.

A vida é um filme que você perde os primeiros 10 minutos e vai embora antes do final. A partir do momento em que você nunca sabe o começo ou o fim, você tem que fazer o melhor no presente. A personagem Ilva tem a clareza na mente para fazer apenas isso. Ela vive no presente e não precisa ler os jornais ou seguir as regras impostas pela sociedade: ela ouve a batida de seu coração. Ela não é inteiramente inocente, mas tem uma qualidade: ela é sincera. Ela ouve as verdades de acordo com seu coração e não precisa se questionar se vai segui-lo ou não, apenas segue. E é assim que tenho feito em toda minha vida. 

Eu não acredito muito em seguir o pensamento de uma só pessoa, porque existem sempre interesses comerciais por trás: Eu tenho sido um diretor que preferi seguir a batida do meu coração. Escondido atrás de Ilva sou eu, ela é um pouco do meu alterego. Eu não gosto de mulheres que são femininas e nada mais, essas babacas que são estereótipos de mulher. Nenhuma cena pedia isso, eu brinquei com a dualidade feminina-masculina de Audrey Dana.

Um tributo ao mundo do cinema

Se você me perguntar de que cidade eu vim, eu responderei “cinema”. Não existe outro lugar calmo como uma sala de cinema que está exibindo um bom filme. A mais maravilhosa jornada de minha vida foi estar no cinema. Então tive que dar a esse cenário as maiores partes de meus filmes. E não é coincidência o teatro do filme ser chamado de Éden. Esse Eden Palace é uma mistura do Scala, do Rex e do Eldorado. Os extratos de filmes que são mostrados em “Esses Amores” foram muito bem escolhidos. Usei cenas que davam continuidade ao filme.

Verdadeiras histórias intercaladas

Em “Esses Amores” toda historia é verdadeira. A única coisa que não é verdade é o link que as junta. [...] Eu adoro a mixagem de anedotas e histórias que as pessoas têm em comum: O inverno, a guerra, noite e dia, calor e frio... Isso é o que faz a historia. A vida ela mesma é uma mixagem de gêneros. Desde pequeno eu fiquei consciente que a vida era uma sucessão de bons e maus momentos num mundo precário, onde todas as coisas ficam velhas e têm um começo e um fim.

Filme Rodado na altura dos ombros

Levei um bom tempo para entender que pessoas devem ser filmadas na altura dos ombros. Em “Esses Amores” não existem ângulos altos ou ângulos baixos: todos são filmados na altura dos olhos. A câmera foca no ser humano como nunca havia sido feito em meus filmes anteriores. Eu nunca havia ficado tão a serviço dos atores, tão próximos a eles. O filme é inteiro feito em closes os quais impõem minha visão, e planos abertos que permitem o espectador escolher para onde ele quer olhar. Isso é uma sucessão de ditadura e democracia na composição do filmes. Para ser claro, eu queria que isso fosse lindo mas expressasse a realidade do cotidiano, não dar a impressão e o sentimento de estarmos em uma pintura.

Um comentário:

Anônimo disse...

oi,sou gaúcha , assisti o filme hoje e adorei! o diretor,os atores,o figurino, maquiagem, trilha sonora... tudo impecável! adoro filmes retratados nos anos dourados e este foi maravilhoso