7 de mai de 2012

O amor feminino apesar da dor e do caos, em "Amor e Dor" de Lou Ye


 O novo filme de Lou Ye, cineasta chinês que foi censurado durante cinco anos na China, por ter realizado um filme que falava da repressão do governo e apresentava um forte aspecto erótico (“Summer Palace”, 2006), se chama "Amor e Dor" aborda questões femininas sobre as quais pouca gente ousava falar.
 "Amor e Dor" conta a história da conturbada relação entre Hua (Corinne Yam) uma estudante chinesa que se mudou para Paris e Mathieu (Tahar Rahim), um francês que trabalha nos subúrbios, em uma construção civil. Aos poucos a relação toma um rumo instável, onde a violência física e verbal começa a fazer parte do cotidiano do casal.

O fato de ela ser chinesa agrava o peso das tradições e da repressão sexual que tornavam muito difícil o acesso à intimidade da mulher, porém, esse aspecto cultural, menos impactante, mas ainda assim sempre presente também no ocidente, sempre permeou a vida das mulheres e moldou nosso comportamento e padrão de pensamento. A memória da opressão e do abandono sempre ronda as mulheres, desde os tempos de casamentos forçados, até as desilusões amorosas, o ostracismo e a violência presente hoje.

Na China, por exemplo, a carência da educação sexual e a repressão à liberdade de expressão afetiva das mulheres, fizeram de várias delas vítimas de estupros, na maioria das vezes acobertados pelo governo. Acarreta, muitas vezes, na forma em que afloram sentimentos de amor e paixão.
 Em "Amor e Dor", Lou Ye questiona explicitamente as limitações da condição subalterna da mulher na sociedade. Não somente a chinesa: Hua é uma estudante que saiu de um relacionamento no qual era bem tratada e manipulava seu companheiro em Pequim, para ir para Paris estudar. Como um gesto de liberdade e de não conseguir se livrar das amarras culturais de passividade, se envolve com Matthiew, um jovem operário francês que nada tem a oferecer a ela a não ser aquilo que sua tentativa de se tornar uma mulher independente não consegue sustentar: A dependência, o vício, a subordinação. O amor e a dor.

Hua foge dos relacionamentos nos quais ela pode controlar e obter estabilidade, como se no fundo não conseguisse se libertar inconscientemente da opressão cultural sofrida pelas mulheres. Ela gosta do abuso (da dor). Mathieu supre a necessidade de parceiro bruto que a trata como um objeto que o pertence (o que ela ama), e ela não consegue abandonar esta relação contraditória de amor e dor, agressividade e posse, diferenças e afinidades, não importa quantas vezes ele a tenha insultado.

Hua é chinesa, mas a história parece bastante semelhante a diversas outras que qualquer garota, ou alguma amiga, já tenha passado. O longa é baseado na obra autobiográfica de Jie Liufalin chamada "Bitch", e o diretor Lou Ye da ao tema um tratamento firme e delicado, trazendo à tona a esperança, o desejo e a contradição das mulheres presas entre o amor e a dor.


Vencedor do prêmio do júri de melhor filme e melhor atriz na 2ª edição do Festival Internacional do Cinerama.BC, "Amor e Dor" é uma bruta e hipnótica fatia de um louco amor.

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