13 de jul de 2011

E como fica o amor, nas relações virtuais no século XXI?

Em 2011, século XXI, o conceito de amor, tão mutável e ao mesmo tempo conservador, pode  ter (e claramente teve) mudado um pouco, assim como muitos conceitos que foram se adaptando ao nosso dia-a-dia moderno.
Ah, o amor! O conceito de amor foi aprimorado durante as décadas até chegar a algo como “amor livre” implementado em meados de 60/70, movimento hippie, peace and love, etc. Isso muito mais promoveu a emancipação da mulher em relação ao conservadorismo sexual que viveram até esse ponto do que a emancipação do “amor” em si, já que agora o “amor livre” possibilitava que as mulheres (assim como os homens) compreendessem esse amor descolado como experiência de prazer e uma possível liberdade. 

Com isso, tudo que pudemos ver de mudança no conceito de amor foi nenhuma, pois as pessoas continuaram (e continuam) colocando o amor como instituição obrigatória, separando “amor carnal” de “amor espiritual”, e este se colocando como algo hipostático, fundido com algo que vai além de nossa razão, algo que vem “da alma”, não como uma intervenção cultural.

As pessoas costumam elevar o amor à um patamar aurático, divino, como a única verdade e última pureza existente em um mundo corrompido por pessoas ruins. Pessoas estas que vivenciam esse amor. Um pouco irônico, e controverso...

A verdade é que temos medo do amor, medo de nossos próprios corpos, corpos que não conseguimos muitas vezes controlar, e o discurso romântico durante muito tempo esteve ali para justificar o “amor carnal” que muitas vezes as pessoas evitam pronunciar que “sentem”.

Isso é completamente cultural. Esse discurso vem das antigas instituições controladoras do estado (a igreja), que tomavam conta da ideologia, que hoje é mediada pelas mídias de massa e principalmente pelas relações virtuais, que naturalizam o artificial e sustentam o discurso romântico. O que antes era feito por troca de cartas é ampliado no cenário dos chats, msn, facebook, twitter, e toda e qualquer outra plataforma de relações virtuais que poderão vir a existir.

O conceito de amor é transitório: muda de acordo com o que a modernização demanda, e o meio pelo qual estabelecemos nossa relação com o corpo do outro.

“Quem precisa de cupido quando se tem internet? [...] Amor é a da morte da libido pelo triunfo do discurso”, reflete Marcia Tiburi sobre o “amor digital”.

O amor, que cruamente falando é o desejo pelo corpo do outro, é abstraído do corpo e pode (e é e muito) idealizado. Sendo assim o “amor digital” é o melhor jeito de sustentar a idealização nos dias de hoje, já que todos as fendas causadas pelo medo que temos do contato físico é suprido pela possibilidade de moldar-se da maneira que quiser por trás de seus perfis nas redes sociais.

A vida digital nos proporciona uma comodidade, como é retratado em "Medianeras - Buenos Aires na Era do Amor Virtual": Mariana (Pilar López de Ayala), e Martin (Javier Drolas) vivem na mesma cidade, na mesma quadra, em apartamentos um de frente para o outro, mas nunca conseguem se encontrar. Eles se cruzam sem saber da existência do outro. Ela sobe as escadas, ele desce as escadas; ela entra no ônibus, ele sai do ônibus. Eles frequentam a mesma videolocadora, sempre com um stand de filmes os separando. Eles sentam na mesma fileira em um cinema, mas não se veem na sala escura.

A cidade que os coloca juntos é a mesma que os separa, e a vida digital que Martin e Mariana levam contribui para isso. Se olharmos de fora, nada lhes falta, mas mesmo assim nunca parece suficiente, é melancólico, pois pouquíssimo investimento libidinal é feito nas relações virtuais, se não nenhum. Falo e não faço, economizo tempo e evito o sofrimento emocional, mas acabo apático por não conseguir me relacionar com o mundo real.

Há uma supervalorização do amor, e há o pensamento assustador que sem amor ninguém pode viver, alimentado pelas mídias, pelas musicas, pelos poetas, por nossos pais, por nós mesmos principalmente.

É aquilo que liga nosso corpo à nossa linguagem, e falando em linguagem, vale lembrar o símbolo mais utilizado para representar o amor, que é o coração. A partir daí podemos claramente ver à que esse “sentimento” foi remetido desde muito tempo atrás até agora.

O computador aparecendo como extensão de nosso cérebro, o amor virtual aparece e acontece! E nos mostra o quanto adotamos e vivemos esse (pré) conceito de amor mesmo sem estabelecer um elo físico, praticando um amor sem o ato em si. Um amor sem corpo.

Portanto, não chego a nenhuma conclusão, apenas que é necessário desatar a ideia da supervalorização do conceito de amor; desvinculá-lo de seu símbolo historicamente mais utilizado que é o coração (eternamente   associado como o mais vital órgão do corpo humano) para podermos enxergar que além da emoção, existe a razão (e o órgão mais vital do corpo humano é o cérebro, porque de nada adianta um coração pulsante numa morte cerebral).
O ideal seria encontrar um equilíbrio entre as relações virtuais e um desprendimento desse conceito de amor espiritual, até porque a ideia de "encontrar alguém" causa certa pressão nas pessoas que tem mais dificuldade de se relacionar e as leva a viver uma vida inteiramente virtual.

“Todos os edifícios, absolutamente todos, têm um lado inútil, imprestável. Que não dá nem para a frente, nem para os fundos: a medianera.” E é nela que precisamos abrir um espaço e deixar que o sol e todas as outras coisas as quais não damos abertura, ou que não preenchem espaço algum em nossas vidas porque não temos tempo ou coragem de tentar vivenciar, fazer parte de nossa rotina e quem sabe encontrar alguém ou algo que independente de qualquer instituição nos faça bem, e feliz.

"Medianeras - Buenos Aires na Era do Amor Virtual" estreia dia 02 de setembro nos cinemas brasileiros.
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